A avaliação de doença valvar cardíaca envolve uma abordagem clínica, física e complementar, visando identificar o tipo de lesão (estenose ou insuficiência), sua gravidade e impacto hemodinâmico. Segue um passo a passo:


1. Anamnese e Sintomas Sugestivos

  • Estenose valvar:

    • Dispneia (esforço → repouso).

    • Sínope (especialmente em estenose aórtica).

    • Angina (isquemia por demanda aumentada).

  • Insuficiência valvar:

    • Fadiga, palpitações.

    • Dispneia progressiva (edema pulmonar em casos graves).

  • Histórico: Febre reumática, endocardite, degeneração senil, cardiopatia congênita.


2. Exame Físico


Ausculta Cardíaca (Principais Sopros)

VálvulaEstenoseInsuficiência
AórticaSistólico (crescendo-decrescendo) em 2ª EIC, irradiação para carótidas.Diastólico (em "ruflar") em 3ª EIC.
MitralDiastólico (em "ruflar") no ápice.Sistólico (holossistólico) no ápice, irradiação para axila.
TricúspideDiastólico em 4ª EIC.Sistólico em 4ª EIC, aumenta com inspiração (sinal de Rivero-Carvallo).
PulmonarSistólico em 2ª EIC.Diastólico em 2ª EIC (raro).

Outros Sinais

  • Estenose aórtica grave: Pulso parvus et tardus, B4.

  • Insuficiência mitral: B3, deslocamento do ictus cordis.

  • Insuficiência aórtica: Sinal de Musset (cabeça pulsátil), pulso bisferiens.


3. Exames Complementares


Ecocardiograma Transtorácico (ETT) – Padrão-Ouro

  • Avalia:

    • Anatomia valvar (espessamento, calcificação).

    • Mecanismo da disfunção (prolapso, ruptura de cordoalha).


    • Gravidade:

      • Estenose aórtica: Velocidade máxima (>4 m/s = grave), gradiente médio (>40 mmHg = grave).

      • Insuficiência mitral: Área do orifício regurgitante (≥0,4 cm² = grave), vena contracta (>0,7 cm).


Ecocardiograma Transesofágico (ETE)

  • Indicado se:

    • Suspeita de endocardite.

    • Avaliação pré-cirúrgica (ex.: reparo mitral).

Eletrocardiograma (ECG)

  • Estenose aórtica: HVEs, bloqueio de ramo esquerdo.

  • Estenose mitral: Fibrilação atrial, sobrecarga atrial esquerda (onda P "mitral").

Radiografia de Tórax

  • Estenose mitral: Achados de congestão pulmonar (linhas B de Kerley), átrio esquerdo aumentado.

  • Insuficiência aórtica: Dilatação ventricular esquerda.

Teste de Esforço

  • Útil em casos assintomáticos para avaliar tolerância ao exercício (ex.: estenose aórtica).

Cateterismo Cardíaco

  • Indicado se discordância entre sintomas e ecocardiograma.

  • Mede gradientes pressóricos e avalia doença coronariana associada (especialmente antes de cirurgia valvar).


4. Classificação de Gravidade (Exemplo: Estenose Aórtica)

GravidadeVelocidade Máxima (m/s)Gradiente Médio (mmHg)Área Valvar (cm²)
Leve<3.0<20>1.5
Moderada3.0–4.020–401.0–1.5
Grave>4.0>40<1.0

5. Diagnóstico Diferencial

  • Sopro inocente (comum em jovens, sem repercussão hemodinâmica).

  • Cardiomiopatia hipertrófica (pode mimetizar estenose aórtica).

  • Problemas não valvares (ex.: comunicação interventricular com sopro).


6. Conduta

  • Assintomático: Monitoramento clínico e ecocardiográfico periódico.

  • Sintomático ou doença grave:

    • Tratamento clínico: Diuréticos (se congestão), controle de FA.

    • Intervenção:

      • Troca valvar (cirúrgica ou TAVI para estenose aórtica).

      • Plastia mitral (valvoplastia percutânea em estenose mitral reumática).

      • Reparo valvar (insuficiência mitral degenerativa).


7. Quando Encaminhar ao Cardiologista/Cirurgião?

  • Sintomas de descompensação (dispneia, sínope).

  • Doença valvar grave, mesmo assintomática (ex.: FE reduzida em insuficiência aórtica).

  • Suspeita de endocardite infecciosa.


Conclusão

A avaliação integra achados clínicos, exames físicos e imagem (ecocardiograma). O tratamento varia desde acompanhamento até intervenção cirúrgica, dependendo da gravidade e sintomas. Sempre considere a possibilidade de endocardite em pacientes febris com sopro novo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog